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MÁTHESIS 15 2006 257-273

ELOGIOS DA LÍNGUA PORTUGUESA

MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA

(Universidade de Coimbra

RESUMO

Muitas vezes se tem escrito elogios da Língua Portuguesa,

sobretudo desde António Ferreira, o único poeta que, contrariamente

aos seus mais famosos contemporâneos, nunca escreveu um só verso em espanhol. Outros escritores exaltaram também a beleza e variedade do Português, entre os quais Rodrigues Lobo, que, no século seguinte, compôs o mais famoso dos seus elogios. Depois veio, no século XVIII, a invasão dos chamados “galiciparlas”, que foram severamente criticados por outros poetas portugueses, sobretudo por Filinto Elísio e Elpino Duriense, que comparavam a variedade e riqueza do vocabulário da Língua Portuguesa, não só com o Espanhol, Italiano e Francês, mas também com as Línguas Anglo-Saxónicas e Germânicas.

Ao fazê-lo, Elpino Duriense esboça aspectos fónicos que parecem provar que o tão discutido cerramento das vogais pretónicas, sobretudo [e] e [o], não ocorreu antes do começo do séc. XIX (fenómeno que é actualmente um traço distintivo entre a pronúncia portuguesa e a brasileira). No séc. XX, o famoso dito de Fernando Pessoa, de que a sua pátria era a Língua Portuguesa, encontrou significativos ecos em Alberto Lacerda, Jorge de Sena e Rui Knopfli, um grupo de poetas que foi educado e viveu em países de Língua Inglesa. Todos estes poetas são, pois, testemunhas do poder aglutinante da língua.

ABSTRACT

Praises of the Portuguese language have often been written, mostly since António Ferreira, the only poet who, contrarywise to his most famous contemporaries, never wrote a single line in Spanish.

Other writers also extolled the beauty and variety of Portuguese, its most celebrates praise being the one by Rodrigues Lobo in the following century. Then came the invasion of the so called “Galiciparlas” in the eighteenth century, who were heavily criticized by other Portuguese poets, most of all by Filinto Elísio and Elpino Duriense, who compared the variety and richness of the vocabulary of the Portuguese speech not only with Spanish, Italian and French, but also with the Anglo-Saxon and Germanic languages. In so doing, Elpino Duriense adumbrates a phonic approach, which appears to

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prove that the much discussed closing of pretonic vowels, mostly [e] and [o], did not occur before the beginning of the nineteenth century (this phenomenon being now a distinctive trait between Portuguese and Brazilian pronunciation. Twentieth century poets, starting with the much celebrated saying of Fernando Pessoa that the Portuguese language was is country, had significant echoes en Alberto Lacerda, Jorge de Sena and Rui Knopfli, also a set of poets who were educated or lived in English speaking countries. All these poets testify to the agglutination power of language.

* É em António Ferreira, todos o sabem, que principiam os elogios da Língua Portuguesa. Numa época, portanto, em que o bilinguismo literário era não só corrente, como praticado pela generalidade dos poetas, desde Gil Vicente a Camões, destaca-se cedo o protesto deste doutor conimbricense (nascido, aliás, na capital), que escreve uma longa carta em verso ao seu amigo Pedro de Andrade Caminha, em que, depois de o situar entre os paladinos do renascimento (“em ti quiseram / as Musas renovar a Antiguidade”), o adverte solenemente da obrigação em que todo o escritor se encontra de cultivar, acima de

tudo a própria língua1:

Do que antigamente mais pregaram todos os que escreveram foi honrar a própria língua, e nisso trabalharam.

Cada um andava pola mais ornar com cópia, com sentenças, e com arte, com que pudesse d’outras triunfar.

A exortação vai prosseguir com o apelo ao paradigma grego e latino, como era de regra entre os quinhentistas, mas logo diversificado pelos grandes cultores de Espanha, França, Itália.

Curiosamente, nos tercetos seguintes a equação amor à pátria – amor à língua vai alargar-se a povos bárbaros, de modo que “getas, arábios, persas e caldeus” surgem ao lado de “gregos e romãos e toda a outra gente”.

Perpassa em seguida a noção, já tantas vezes apontada pelos estudiosos, da urgência em exaltar os feitos lusitanos no Oriente, aqui Cartas I, 13-18. Nas citações dos Poemas Lusitanos seguimos a edição de T. F.

Earle (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000).

ELOGIOS DA LÍNGUA PORTUGUESA

sugerida através do adynaton que resultaria de um capitão dar ordens de comando aos seus homens em língua estrangeira2.

De novo a obrigação para com a terra-mãe vai afirmar-se nas suas

duas vertentes (v. 66):

ou seja com bom braço ou bom saber, até se encaminhar para a famosa dicotomia que já vinha, também ela, da Antiguidade (lembre-se a insistência com que Cícero opunha arma e toga) e que atinge o seu ponto mais alto nos versos 91-92 ó quantos quanta mor fama ganharam co’ a pena que outros com a espada!

A exortação adquire um tom mais veemente a partir do verso 104, até que atinge a sua mais alta expressão no mais célebre dos tercetos





do autor:

Floreça, fale, cante, ouça-se e viva a portuguesa língua, e já, onde for, senhora vá de si, soberba e altiva.

Os tercetos cometem a Andrade Caminha a missão de demonstrar a capacidade do idioma nacional.

Atente-se sobretudo neste passo (verso 130-132):

Mas tu farás que os que mal julgaram e inda as estranhas línguas mais desejam, confessem cedo ant’ ela quanto erraram.

A mesma expressão de amor à língua pátria, agora transposta para a primeira pessoa, encerra outro dos mais famosos poemas de António Ferreira, possivelmente composto pela mesma época3, a Ode I do livro I. É aí que uma nova censura aos que a não cultivam (“língua aos teus esquecida”) se conjuga com a modesta renúncia a exceder os limites A. Roïg, “António Ferreira et l’aventure lusitanienne d’outremer”, Arquivos do Centro Cultural Português (1980) 577-607, faz a lista dos poetas a quem Ferreira sugeriu a celebração desses temas, mostrando expressamente a insistência (cinco exemplos) para com Andrade Caminha (p. 602).

T. F. Earle, nos comentários à sua edição, propõe 1554 para terminus ante quem da composição da carta, e 1557 para a da Ode.

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Seja-nos permitido chamar a atenção para a tonalidade mais subjectiva que V. M. Aguiar e Silva encontrou no Soneto 31 do Livro II, também esse endereçado a um poeta que não escrevia na língua nacional, e que, talvez por esse motivo, não encontrava eco junto da

sua amada (v. 11):

não é tua voz com tanto efeito ouvida.

Está aqui subjacente como agudamente escreveu aquele Professor, “uma reflexão mais profunda, surpreendentemente moderna, acerca das relações expressivas, comunicativas, cognitivas, podemos mesmo dizer ontológicas existentes entre a língua materna e o mundo interior, subjectivo, vivencial, representado no poema”5.

Este valor do uso do idioma pátrio como meio privilegiado da comunicação de sentimentos profundos vai-nos aparecer, efectivamente, na contemporaneidade, como veremos adiante.

Voltando ao nosso quinhentista, não podemos deixar de referir aquele, aliás bem conhecido, terceto final da elegia em que Diogo

Bernardes pranteia o seu desaparecimento:

Verei com secos olhos seca a veia que dando à pátria tantos versos raros, um só nunca lhe deu em língua alheia?

Entretanto, vários indícios apontam para o que Maria Leonor Carvalhão Buescu chamou “a polémica mais ou menos latente durante os séculos XVI e XVII entre os decididos apologistas da língua nacional e os que reconheciam a superioridade da castelhana como Dois séculos mais tarde, Filinto Elísio far-se-á eco deste verso na sua “Carta a

Brito”, v. 804:

Bom Ferreira, de nossa língua amigo!

A citação é do estudo introdutório à edição fac-simile de 1598 dos Poemas Lusitanos (Braga, Universidade do Minho, 2000), p. XI.

ELOGIOS DA LÍNGUA PORTUGUESA

língua de maior circulação, expressividade e riqueza”6. A questão está bem clara no Diálogo em Louvor da Nossa Linguagem, de João de Barros, que, depois de comparar as qualidades das línguas italiana, francesa e espanhola entre si, começa a enumerar os atributos da

materna, a partir desta pergunta retórica7:

Que se pode desejar na língua portuguesa que ela não tenha?

Qualidades semelhantes lhe aponta também Duarte Nunes de Leão, no seu tratado Origem da Língua Portuguesa.

Proximidade do Latim, majestade, gravidade, “força para declarar, mover, deleitar, exortar” são as principais características, que não andam longe das que, no século seguinte, lhe assinalará como próprias aquele que é certamente o mais famoso dos encómios da língua portuguesa: o que Rodrigues Lobo compôs no Diálogo I de A Corte na Aldeia. Precisamente porque é muito conhecido (e mais ainda a censura final ao desleixo com que a língua é tratada – “a trazem mais remendada do que capa de pedinte”), não nos deteremos nela senão para sublinhar os motivos da primazia que também aqui lhe

é dada sobre as outras:

Tem de todas as línguas a melhor: a pronunciação de Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana.

Um estudioso das Línguas Clássicas dificilmente aceitaria comprovar a exactidão do confronto com qualquer delas, mas não pode deixar de admirar o exercício de estilo que brilha em todo este trecho. As observações à doçura da pronúncia e à simplicidade da ortografia (“escreve-se da maneira que se lê e assim se fala”) é que não condizem por completo com as de uma autora sua contemporânea, Bernarda Ferreira de Lacerda, que, no começo do seu poema Hespaña Libertada, depois de pedir desculpa a “mi patrio reyno Lusitano”, por escrever em castelhano, para assim a sua musa “ser mais vulgar y A citação é da p. XXXI da Introdução à sua edição de João de Barros, Gramática da Língua Portuguesa (Lisboa, Faculdade de Letras, 1971), onde, por sua vez, remete para o prólogo de Eugenio Asensio, A Comédia Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcelos (Madrid, 1954), pp. XL-LII.

P. 399 da edição citada na nota anterior.

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Porém, na centúria seguinte, surgirá, como se sabe, e por muito tempo, uma nova ameaça à pureza da língua, porquanto, à miragem castelhana se substituirá aquilo a que Garrett9 chamou a “galomania” e outros o “francesismo”.

A moda do francesismo está ridicularizada, como é do conhecimento geral, num episódio do Hissope, mas é de Filinto Elísio que lhe vem o grande ataque, principalmente na “Carta a Brito”, no “Arrazoado” e no “Debique”. Aí, as invectivas contra os que adulteram a língua materna e os louvores aos que a cultivaram sucedem-se revelando ao mesmo tempo a criatividade linguística e estilística do autor. A “Carta a Brito”, a mais marcadamente didáctica, imagina, a certa altura, um diálogo com Correia Garção, e noutro momento, põe em cena o Padre António Vieira a falar com um peralta e com Ribeiro. Por sua vez, o “Debique” encena um encontro com Quevedo e um Francelho-Mor, opondo “latiniparlas” a “galiciparlas”.

O “Arrazoado” forja, mediante um sufixo verbal frequentativo, uma

caricatura da situação presente (59-67):

Muitos que hoje escrevem franceseam.

Francesear agora é tão absurdo Quanto o fora nos séculos latinos Vandalear, falar suevo ou godo.

Francesear em língua portuguesa Parte primeira, canto primeiro, est. 6. A citação tomamo-la de J. A. Segurado e Campos, ed., Gabriel Pereira de Castro, Ulisseia ou Lisboa Edificada (Lisboa, Fundação Calouste Gulbekian, 2004), vol. II (Estudos Histórico-Literários)p. 311.



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